, ,

Sobre amor, sorvete e unicórnios

15:59



Faz tempo que não leio um texto com "Era uma vez", então é assim que esse vai começar.

Era uma vez uma garota razoavelmente bonita, linda se comparada a seu passado. Após o fim da sua puberdade deu a sorte de transformar um ninho que chamava de cabelo e o corpo de uma criança obesa em uma jovem cheia de curvas com uma aparência agradável aos olhos. Seu nome era Agatha, até gostava do nome. Agatha vivia se enganando, acreditava que media 1,65 mas sabia que eram só 1,60. Apesar disso se sentia bem por ser baixinha, isso tornava mais fácil se acomodar em lugares apertados e fazia com que ela se encaixa-se estrategicamente confortável em abraços alheios. Jurava amar academia e praticar exercícios ao ar livre mas não fazia nenhum dos dois. Era totalmente sedentária.

Agatha gostava de ser a Agatha mas não se importaria se fosse a Bruna, Joana ou Joaquina, no fim das contas sempre era chamada por um apelido que nada tinha  a ver com seu nome. Ultimamente a chamavam de Mel. De doce ela só tinha o apelido mesmo, no alto dos seus 1,60 de altura se julgava totalmente capaz de enfrentar qualquer um ousasse lhe contrariar. Era tão decidida que chegava a ser irritante e  apesar de tudo isso era uma pessoa boa que muitos gostavam de ter por perto.

Um belo dia andando na AV. Paulista vestida com shorts e uma sobreposição hipster de suéter e camisa sentiu um cheiro doce e amadeirado no ar, aquele cheiro lembrava o perfume do seu ex namorado e isso a fez querer vomitar, ela era sentimental apesar e toda marra, lembranças lhe causavam náuseas. Agatha se encolheu apertando a barriga e tentou fugir da muvuca da avenida, encontrou um banco e se sentou de cabeça baixa enjoada. Enquanto esperava seu estômago descer da Montanha Russa em que parecia estar ela sentiu algo pontiagudo cutucando seu braço, virou-se devagar e abriu os olhos incomodada.

Agatha não se assustou quando viu um lindo unicórnio branco do seu lado, seu chifre era rosa brilhante igual a um my little pônei cheio de purpurina, era maravilhoso e ela quis monta-lo, não sei bem se unicórnios podem ser montados mas o Sr. Chifrudo pareceu não gostar da ideia. Agatha não se lembrava de ter provado algum cogumelo estranho, nem mesmo champignon, mas jurava ter ouvido o unicórnio lhe chamando de mel. O unicórnio-my-little-pônei era simpático, ficaria ótimo na decoração de um apartamento moderno ou no meio de um jardim botânico, caso fosse uma estátua.

Um pouco melhor do enjôo Agatha se levantou do banco, coçou a crina do unicórnio fofinho e saiu andando como se nada tivesse acontecido. Quando se deu conta estava andando a uma meia hora em linha reta, sua cabeça estava longe. Depois de passar mal na rua e ver um unicórnio ela não conseguia pensar em absolutamente nada, só se deu conta de onde estava quando viu seu reflexo parado em frente a uma vitrine de loja, no manequim um vestido com estampa de sorvetes lhe chamou atenção, Agatha soltou um sorriso de canto de boca e comemorou por estar com o cartão de crédito.

Entrando na loja um moço bonito veio lhe atender, ele usava uma camiseta do Guns N' Roses, tinha o cabelo pra cima e uma barba mal feita muito bem feita, se é que me entende. Era loiro, não loiro albino, não loiro azedo, era loiro com cara de garoto de praia, ele se encaixava perfeitamente no esteriótipo de homem dos sonhos de Agatha. Ela sentiu ainda mais vontade de comprar o vestido.  O moço bonito perguntou:

- Posso ajudar?
- Claro, primeiro me diz seu nome, depois me trás o vestido de sorvete da vitrine.
- Meu nome é Rodrigo.

Ele tinha um bom nome, Rodrigo, ela poderia inventar vários apelidos para ele. Agatha havia gostado da camisa do Guns, do nome dele e do seu cabelo cor de areia. Tentando puxar algum assunto lhe perguntou o óbvio:

- Gosta do Guns?

Sarcástico ele respondeu:

- Acho que sim. Gosta de sorvete?
- Adoro sorvete.
- Chocolate ou pistache?
- Pistache.
- Morango ou baunilha?
- Baunilha.
- Pistache ou baunilha?
- Uma bola de cada por favor.
- Desculpa, não tenho sorvete.
- Tudo bem, seu telefone serve.
- Ok. vai ficar com o vestido?
- Pode embrulhar.

Rodrigo lhe entregou a sacola com o vestido dentro, na sacola tinha um unicórnio desenhado em cima do nome da loja e Agatha achou aquilo muito estranho, passou o cartão quase sem limite, deu um beijo no rosto de Rodrigo, como se isso fosse muito comum entre atendentes de loja e clientes e saiu feliz com seu vestido novo. Agatha gostou de Rodrigo, ele era legal e apesar de vender roupas em uma loja feminina não pareceu ser gay, talvez fosse um atrativo para mulheres comprarem na loja. Rodrigo pareceu gostar dela também, uma pena não poder conversar mais com ele sobre sorvetes, queria ter contado que odiava o sabor chiclete.

Depois de pegar um metrô e andar mais algumas quadras Agatha chegou em casa. Ela ligou a televisão, se jogou no sofá e dormiu. As vezes ela preferia o sofá a sua cama, deitar no sofá era como se sentir abraçada por alguém. Umas 5 horas e muitos sonhos loucos depois Agatha acordou, Ellen DeGeneres entrevistava a Miley ao mesmo tempo que as duas dançavam "twerk" ao som de We can't stop na televisão. No meio dessa bagunça toda ouviu um bip do celular, uma notificação do facebook. Rodrigo havia lhe mandado um pedido de amizade, ela sorriu para as paredes e aceitou o pedido, viu que os dois tinham muitos amigos em comum e lamentou por não ter conhecido ele a mais tempo.

Depois de olhar todas as fotos de Rodrigo decidiu tomar um banho e experimentar seu vestido. Ela tinha mania de comprar sem experimentar e essa foi a causa de uma sessão chamada "roupas que eu gosto mas que nunca irei usar" surgir no seu armário. Agatha saiu do banho espalhando cheiro de flor pela casa, abriu a sacola da loja e viu em cima do vestido dobrado um papelzinho com um numero de telefone. Ela vestiu seu vestido com estampa de sorvete e gostou do que viu no espelho, estava perfeito! Satisfeita pegou o celular e ligou no numero do papelzinho.

- Alô, Rodrigo?
- Sim, quem fala?
- Agatha, encontrei um papel com esse numero de telefone junto do meu vestido e achei que devia ligar.
- Devia mesmo, que tal tomar um sorvete de pistache e baunilha comigo?
- Que tal musica eletrônica e uns bons drinks?
- Fechado, te pego às dez na porta da sua casa.
- Você não sabe onde moro.
- É só me dizer.
- É claro, às dez então. Te mando sms com meu endereço.

Por incrível que pareça na hora combinada ela estava pronta, acho que foi a primeira vez que foi pontual na vida. Rodrigo ligou no celular e disse que estava na porta. Os dois andaram juntos até um lugar "cool" cheio de gente bonita e com musica boa tocando. Os dois se sentaram em uma mesa no canto. Eles se olhavam sem parar, pela primeira vez Agatha havia parado de falar e eles conversavam através dos olhos. Rodrigo realmente se interessou por aquela garota, ele nunca havia encontrado uma menina tão maluca e intrigante quanto Agatha.

Finalmente ele consegui abrir a boca, perguntou a Agatha o que mais ela havia feito durante o dia, ela contou a história do unicórnio. Ele achou que ela era mais maluca do que ele pensava  e isso aumentou ainda mais seu interesse, o que me fez pensar que ele era mais doido que ela.

- E agora tá vendo algum unicórnio-my-little-pônei?
Ele perguntou achando graça.
-Me beija.
Ela respondeu sem pestanejar.

Ele a obedeceu. Com os olhos fechados Agatha voltou a ver o unicórnio, dessa vez o chifre rosa brilhava mais do que nunca e ela gostava do que via, mentalmente agradeceu pela sorte que aquele ser estranho havia lhe dado nesse dia. 

O beijo do  Rodrigo tinha gosto de sorvete de chiclete e a partir daquela hora Agatha havia elegido aquele o seu sabor de soverte e de beijo favorito.

Andressa Maia

Posts relacionados

0 COMENTÁRIOS