Era uma vez uma garotinha

15:07


Daniele andava plena pela sala, seus passos eram suaves. Seus cabelos estavam despenteados, não sentia calor, não sentia frio. Abriu uma janela e fixou o olhar no amanhecer entre os telhados vizinhos. Ela estava em paz. Repousou a mão sobre a barriga e fechou os olhos, viajando para muito longe na memória, até lembrar-se de uma garotinha.
Era tudo sobre essa garotinha, uma menina que costumava viver dentro dela. Sua melhor amiga, alguém alegre que não tinha medo de correr por aí e tropeçar em alguns galhos, que não tinha medo de escalar montanhas, pelo contrário, ela amava a vista. Andava por vários caminhos sem medo de se perder, já havia enfrentado vários leões, mas morria de medo de borboletas. Mas não das coloridas, daquelas que às vezes moram no estômago da gente e que tentam escapar pelo choro, ela nunca entendera como elas entravam dentro dela. Era uma garotinha esperta, que gostava de ler todas as placas e transformar todas as árvores em brinquedos, adorava ouvir historias e inventar as próprias. Sonhava com o príncipe encantado e mantinha a fé acima de tudo. Triste foi o dia em que essa menina foi presa. Dentro de uma gavetinha apertada, lá no fundo, próximo ao último pensamento da vida, a garotinha foi trancada e calada pela própria Daniele.

O caso é que, em um dia qualquer, disseram a ela pra acordar pra vida. Que a garotinha só a atrasava, e que tudo era bobagem. Contaram que pra ela ser feliz ela ia precisar de alguns pedaços de papel com animais desenhados, bonitos até, e que viver de sonhos, ou pior, acreditar neles, era inútil. A vida tratou de derrubá-la mais. Ensinou pra ela que o príncipe que vinha no cavalo branco era bem pior do que um sapo. Porém a fé, ela nunca deixou morrer, talvez seja por isso que ela ainda mantinha contato com a garotinha na gaveta.

Desse dia em diante ela passou a viver de acordo com o que esperavam que ela vivesse. Seguiu todos os padrões, cumpriu todas as regras, foi boa, foi honesta, ignorou os maus sentimentos, e cada aprendizado, ela contava secretamente pra garotinha. Foi o máximo de tudo o que esperavam que ela fosse. Mas isso não era suficiente. O padrão da perfeição é cruel. Daniele foi perfeita 99% das vezes, mas o 1% em que escapou, condenava todo o resto. Mais uma vez ela foi julgada, e se rendeu perante aos duros olhos da critica.

Abalada, buscou na fé a esperança necessária pra resgatar a garota na gaveta. Era seu único amparo. A surpresa veio quando ela se deparou com uma mulher, jovem, forte e sorridente. Estendeu-lhe a mão e quando se encontraram lembraram-se dos dias felizes que viveram juntas. A garotinha, agora um perfeito reflexo de Daniele, contou sobre o tempo que passou presa, e sobre a pressão que a fez se libertar. Dani se sentia envergonhada de ter abandonado a garota, e pedia desculpas a todo momento. Ela simplesmente a olhou e agradeceu, por que foi a experiência que a fez crescer, que as fizeram crescer juntas. Daniele então ergueu os olhos, decidiu encarar a vida, só que agora em pé de igualdade.

Se ela venceu?

Bom, essa era sua dúvida há alguns segundos, quando sentia em seu ventre a coisa mais perfeita, o melhor presente e recompensa que a vida poderia lhe dar. Ela sorriu ao sentir seu bebê chutando contra sua barriga. Sorriu mais ao pensar na MULHER que se tornou. Olhando para o amanhecer respirou aliviada. Ela estava em paz.

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