Prazer, ELA

18:37

ELA levantou cedo. Sonolenta andou até o banheiro e fitou seu reflexo, nunca estivera tão horrível, exceto pela vez em que seu cachorro morreu, mas era esse mesmo o espírito. Algo morrera dentro dela, e foi um “cachorro” também. Não tinha palavras pra dizer a si mesma, o reflexo falava por si só. Os olhos vermelhos, o rosto inchado, os cabelos imitavam um ninho de passarinho e davam pra fritar um quilo de batatas de tão oleoso. Não estava em seus melhores dias, mas enfim era outro dia.

Antes que eu continue, essa história não é sobre mais um término de namoro...

ELA poderia muito bem ser você. Então coloque o seu nome nessa história, substitua pelo nome da personagem, porque essa história é sobre descobrir quem você é de verdade, independente de quem está na sua vida ou esteve. Vamos brincar de faz de conta...


Ainda diante do espelho, ela estava pronta pra refazer o plano. Mas antes ela passou pelos três estágios:

NEGAÇÃO: “Não pode ser possível! Eu me recuso a acreditar! Com certeza é mentira, ele nunca faria isso!”.

DRAMA: “Depois de tantos anos passando pelos autos e baixos da vida, encarando riscos e compartilhando planos tão lindos! Planos que agora não passam de fantasia, um futuro que nunca existiu, um futuro que ele preferiu compartilhar com o passado, me trocando por uma ex... me tornando uma ex.”

ACEITAÇÃO: “Pois é... a vida é assim mesmo. Nossa que P*** vontade de ir ao cinema!”

Depois disso, arrumou-se, não pra alguém, mas pra si mesma. Foi ao shopping e não se importou de ir sozinha. Era um momento só dela. Os casais que desfilavam de mãos dadas lhe davam náuseas, mas um par de sapatos novo lhe deu um pouco de paz. Foi comprar um ingresso para ver um filme. Romance, Drama, Comédia romântica, Drama romântico, Terror romântico, Ação com romance... OBA! Um musical!

Mentira, ELA odeia musicais. O filme deixou de ser uma opção.

ELA então foi tomar um sorvete, pra matar o tempo abriu a embalagem do sapato novo. Uma pena, ele nem era tão bonito. Levantou-se e começou a andar sem direção, mergulhando em pensamentos.


O que ela fizera todos esses anos? Aonde estavam suas amigas, aonde estava ela mesma!? Sua vida? De que adiantava toda a independência que a maioridade havia lhe proporcionado há alguns anos, se ela se tornou dependente de outra pessoa? Quem era ELA afinal? Aliás quem ela foi? Por que a ELA de agora, andava como um zumbi por um shopping lotado tentando preencher com coisas materiais o buraco que ainda sangrava, exposto em seu peito.

E lá ia ela chorar em público. Até que esbarrou em uma parede e caiu no chão.

A parede tinha nome e sobrenome, mas isso ELA só descobriu quando ele a ajudou a se levantar. ELA viajou tão longe em seus pensamentos que não andava mais pelo emaranhado de gente do shopping, mas um cara alto e forte que ela decidiu julgar por “cara gato do shopping” a tirara do transe.

“Você está bem?” ele perguntava com um pouco de preocupação.

ELA não falou nada por alguns segundos, mas depois de cair na real disse “Agora eu estou” os dois sorriram e ela não hesitou em pedir uma companhia para o cinema, fazia tempo que ela não se arriscava, que mal faria?

ELA terminou seu dia em casa, com um número de telefone, e com a cabeça completamente mudada. Quase imediatamente pegou o telefone. Discou um, dois, três, quatro números.

Fazia tempo que não conversava com as amigas. Não aquelas com que aprendera a conviver depois de um tempo, mas aquelas que sempre estiveram do lado dela, desde o início da adolescência e que mesmo com suas vidas já formadas ainda tinham tempo para ouvir seus dramas.

ELA finalmente enxergou quem ela foi, quem ela era e quem finalmente ela estava caminhando para ser. ELA estava viva, e a alguns passos de ser ela mesma.

You Might Also Like

0 COMENTÁRIOS

FÃ PAGE

PINTEREST