A pior parte de perder alguém

10:09



 - Eu gosto de Melissa.


- Nossa filha não vai ter nome de sandália, amor...


Ele se divertia ao rir das minhas ideias.


- Por que não pensa em outro?


- Tem milhares de nomes dos quais eu gosto. Daqui até os próximos dez anos, quando formos casados, estabilizados, felizes e pensando em ter filhos, eu já vou ter te convencido de que ela vai se chamar Melissa.


- Tudo bem Sra. Sabe tudo. Agora venha aqui e me dê um beijo.


Era surpreendente o quanto eu gostava de beijá-lo. Ele me soltou ficando a poucos centímetros do meu rosto, e sussurrou:


- Eu te amo.


Seus olhos brilhavam enquanto fitavam os meus. Cada pelo que se arrepiava em meu corpo sabia que aquelas palavras eram verdadeiras. Ele sorriu.


Eu o beijei, ele me beijou, Nós nos beijamos. Ele sorriu novamente e naquele instante seu sorriso parecia iluminar a noite. Mas haveria um brilho mais forte a seguir.


Seu rosto foi a ultima coisa que eu memorizei antes da luminosidade irromper pela janela do carro, fechando meus olhos.


 Eu só os abri três dias depois em um hospital, minha mãe segurava minha mão. 


Um motorista bêbado em uma caminhonete acertou o lado esquerdo do carro em que estávamos. No momento em que eu soube disso, soube também que parte de mim acabara de morrer, juntamente com o amor da minha vida.


A pior parte de perder alguém é aquela em que você se perde.


Fiquei desnorteada, não sentia minhas pernas, não enxergava o chão, não ouvia ninguém. Só sentia uma dor tão forte que me obrigava a levar a mão ao peito. Não havia consolo.


Deram-me um calmante para que eu dormisse. Depois de um sono pesado e sem sonhos, agarrei-me aos lençóis e me afoguei no travesseiro, ainda haviam lágrimas intermináveis, para uma semana interminável.


Não tive coragem de ir ao cemitério, nem de atender ligações dos amigos dele. Eu apenas evitava pensar nele, o que era impossível já que cada parte do meu quarto tinha uma parte dele. Os porta-retratos na parede imortalizavam nossos três anos juntos, exibiam sorrisos, me mostravam o rosto o qual eu nunca mais veria novamente. Doía como se todos os meus ossos estivessem quebrados. Deitei ali mesmo, me estirei no chão, a realidade havia me nocauteado.


Depois veio a hora de encarar a vida.


Levantei-me na segunda para ir à aula, era o meu primeiro semestre na faculdade e naquele dia todos pareciam me conhecer. Talvez a cicatriz no meu rosto denunciasse aos veteranos que eu era a garota do acidente na semana passada. Sentia os olhares de todos nas minhas costas. Com o tempo ninguém mais se lembraria.


Não que eu tivesse me esquecido de chorar, mas havia um bom tempo que eu não o fazia, foi nessa noite que ele veio me visitar. Sonhei com seu rosto, conversávamos no meu quarto, ele segurava minha mão e antes que a noite terminasse, ele me deu um ultimo beijo.


No dia seguinte, caminhei até a faculdade sentindo no meu rosto o vento, que era como milhões de beijos. Ri verdadeiramente de uma piada sem graça, fiz uma prova difícil, conheci pessoas novas e entre encontros e desencontros com a minha consciência, tentei seguir adiante.

- Eu vou te amar para sempre, meu amor!



Eu nunca superei de fato. E nem vou. Não há um dia sequer que não veja seu rosto quando eu acordo. As vezes a saudade me esmaga, mas as lembranças que restaram só me fazem sorrir, como nosso ultimo riso juntos, como o vento que me beija todos os dias, como o sol que me aquece todas as manhãs e me lembra que ainda existem mais um dia pela frente... até o dia em que eu o encontrar de novo.

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