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Ces’t la vie

10:40




  O término do namoro foi dilacerante para mim. Foram nove meses intensamente aproveitados e, novamente, eu me entreguei por inteiro. Eu fui de peito aberto e caí de cara no chão do meu apartamento. Sozinha, com um bilhetinho que dizia: Me desculpe, mas eu ainda amo ela. 

   Ser trocada pela EX é uma experiência especialmente traumática. Mas algumas rodadas de farras com os colegas da faculdade, noites vendo filmes de qualquer tipo, desde que não seja uma comédia romântica, com as amigas, misturadas a mais uma promessa de nunca me entregar assim novamente me fizeram acordar todos os dias seguintes sem sequer pensar na dor que ele me causou. 

  Até o dia em que eu recebi um bendito telefonema. A secretaria eletrônica teve mais forças do que eu e recebeu o recado por mim: Dois meses depois, o fulano de tal resolve querer se encontrar comigo, em uma maldita lanchonete onde nos conhecemos. Eu deveria ter atendido o telefone e mandado ele tomar em 6 lugares diferentes... mas infelizmente eu ainda tinha um inconsciente muito forte e não resisti. 

  Não vou mentir, eu vesti a roupa casual mais sexy que eu tinha, eu diria que eu estava mesmo muito gata. Improvisei varias e inúmeras cenas na minha cabeça do que aconteceria nesse encontro improvável, mas quanto mais eu pensava mais embaraçada me sentia. Quando percebi, estava a menos de um metro dele (eu não tinha uma fita métrica, mas quer dizer que eu estava bem perto) e eu me lembrei de como ele tinha um sorriso lindo. Não tinha como correr. 

  Ele me abraçou e o perfume dele só fez com que meu estômago se embrulhasse mais. Eu respirei fundo. 

“Você está linda... como sempre 

DROGA. 

“Senti saudade, como você está?” 

DROGA DUPLA. 

“Você ainda sabe falar?”  – sorriso irônico. 

DROGA... Aff. 

  “Eu não sei por que cargas d’agua você resolveu querer me ver de novo... Você quer me ouvir falar? então eu vou te responder: Sim, eu sei que eu sou linda, eu estou ótima e não... eu não...Olha, cala a boca e me escuta, ok? A gente planeja um tanto de coisa, grava tudo o que vai ‘jogar na cara’ da pessoa, mas isso é inútil, porque quando a boca da gente trava, não tem nada que nos faça falar, então eu vou bancar a louca aqui e falar tudo o que eu quero dizer, independente de ser o que você quer ouvir, e dane-se se não fizer sentido algum. Você sentiu saudade? Eu não! Você acha que em algum momento nesses dois meses eu pensei em como nós éramos diferentes? Em como você me completava, nossas mãos se encaixavam e nós nos misturávamos perfeitamente nos lençóis? Em como eu adorava bagunçar seu cabelo enquanto você me pegava no colo? Nas ligações de horas de durações madrugada a dentro? Do seu gato e do meu cachorro que não se davam bem? De como você me fazia sentir segura, bonita, amada? Eu não... EU NÃO! Eu diria tranquilamente que passaria o resto da minha vida com você, se você não estivesse dizendo isso à outra pessoa. Eu assumiria que sinto sua falta mais do que tudo no mundo, se isso não demonstrasse tanto a minha fraqueza. A diferença, era que quando eu dizia que te amava... era real, e você fingia tão bem, que se dissesse isso nesse instante eu acreditaria com certeza. Mas você não é o que eu quero pra mim. Você dá valor ao que não é mais seu, coitada da sua atual, que antes era sua Ex, e que agora deveria ser corna se eu não estivesse fazendo a maior loucura da minha vida, falando tudo isso com você agora. Eu ainda te amo, mas quero ter o prazer de um dia poder te dizer que não sinto nada mais por você. Passar bem.” 

  Me levantei o mais rápido que pude, enquanto sentia minha aura de superioridade se espalhando. 

  “Ei!!! Espera!!! Vai com calma garota!!! Antes que você surte de novo, porque você vai surtar, não foi pra ‘concertar as coisas’ que eu te chamei aqui. Eu vim admitir sim, que foi um erro o que eu fiz com você, e porque não assumir que eu ainda te amo, mas o que eu vim falar foi outra coisa... 

 Eu vou ser pai.” 

DROGAS MULTIPLAS. 

  DROGAS INFINITAS!!! Nesse instante, não tinha chão, não tinha cadeira, não tinha lanchonete, não tinha ELE. Só eu e uma vontade enorme de vomitar. 

“Que legal” – eu disse, antes de sair correndo desajeitadamente, enquanto ouvia ele me gritar. 

   Quando eu disse que você planeja uma situação e ela não acontece, não era nesse nível extremo. Fiquei me sentindo o Amado Batista, louca procurando uma mesa de bar e um garçom para desabafar, me tranquei em meu apartamento e demorei pelo menos uma semana até absorver a informação. Ele continuou a me ligar por quase um mês, eu não atendi/retornei nenhuma. 

   Mais dois meses de terapia intensiva com as amigas e colegas, e nem doeu tanto desejar felicitações ao casal pelo facebook. Doeu por um bom tempo, mas acho que estou criando imunidade a dores referentes a relacionamentos. Eu não quero me tornar uma pessoa fria... eu ainda sonho com o amor da minha vida, que vai me dar uma família bonita, filhos, netos, envelhecer junto com alguém e morrer juntinhos e bem velhinhos numa cadeira de balanço. 

   Mas por enquanto ser bonita, rica e rodeada de pessoas que me ajudam a recuperar das ressacas da vida... bom da pra ir levando. 


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